sábado, 13 de outubro de 2007

um pedido simples para um amor complicado

Parece até que eu te tenho aqui dentro, pois exalo você por todos os poros.



''...Perambulo pela vida há mais de 20 anos. Desses 20, pelo menos 3 são caminhando com você presa à minha cabeça o dia todo, sem intervalos. Você faz parte de cada sonho meu, é a primeira coisa que vejo quando fecho os olhos, a primeira em que penso quando acordo. É inspiração para quando compro roupas, vou ao dentista ou corro pela manhã. Antes que isso a deixe assustada, quero dizer que não tenho nenhum tipo de aspiração ou de pretensão imediata a seu respeito. Por isso resolvi escrever esta carta, para te fazer um pedido muito importante para mim: deixa eu gostar de você para sempre?


Eu juro que não faço estardalhaço, não faço barulho, nem atrapalho nada seu. Vou ficar quietinho no meu canto, como sempre estive, só te admirando. Vou imaginar como seria se a gente namorasse. Você me mandaria um torpedo do trabalho dizendo que acordou tarde hoje e quase se atrasou. Diria na mesma mensagem que me ama e quer me ver à noite, e que tem tanto trabalho que acha que nem vai dar conta. Eu sorriria, apenas, e me sentiria amado.


Vou ficar aqui no meu quarto sossegado, imaginando que mais tarde você chegaria da academia e me ligaria pra dizer que viu alguém ou alguma coisa muito engraçada, ou apenas para dizer que já está em casa e que sente saudades. Eu iria dizer que sinto também e pronto. Depois, você iria estudar para a sua prova da pós e eu iria jogar meu videogame de todo dia.


Secretamente vou imaginar o que você fez no seu dia, o que as meninas do trabalho falaram de absurdo que você contaria pra mim morrendo de rir, porque sabe que eu sempre acharia um absurdo o que elas falam com você por lá. Depois, vou imaginar você me contando tudo de novo, agora com detalhes entre risadas e a vontade angustiante de estar mais perto do que um fio de telefone permite.


Eu te contaria como foi meu dia, as coisas que estou pensando sobre o futuro da minha loja e porque eu não acho que ela vai para frente. Você me daria conselhos sobre o que fazer, discordaria de quase todas as minhas idéias e me convenceria de que as suas são bem melhores. Eu iria querer mudar de assunto, e perguntaria o que você andou estudando. Você responderia, explicando matéria por matéria, como se eu entendesse alguma coisa de Marketing.


E todos os dias, antes de dormir, a gente ia conversar à toa sobre nada, só porque a gente saberia que tem assunto sempre, que nunca falta o que falar quando estamos tão próximos. Acho que é assim que acontece quando alguém ama uma outra pessoa. E eu acho que a gente nasceu um pro outro, por mais que não tenhamos descoberto isso ainda. Um dia, você vai ver, vamos formar um belo casal. Não tenho pressa, tome o seu tempo.


Só te peço que me deixe gostar de você pra sempre, juro que não faço barulho nem confusão. Olho de longe, admiro, penso, suspiro e depois vou embora. E no dia seguinte faço tudo de novo, com um sorrisinho no rosto e uma esperança do tamanho de um elefante no coração.
Pode?
Obrigado pela atenção. Aguardo ansiosamente pela resposta.
Do seu...''



*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Transforma realidade em ficção da mesma forma que faz da ficção a sua própria realidade

Ilustração: Mariana Mauro

sábado, 15 de setembro de 2007

mais uma dose, por favor

'Adoro esse olhar blasé que não só já viu quase tudo, mas acha tudo tão dejá vu mesmo antes de ver. '

Cartola disse uma vez que finda a tempestade o sol nascerá, cabe a mim, acreditar no mestre e esperar que essa nuvem negra se desfaça e que em breve eu possa estar lá fora no jardim aproveitando o céu aberto.

Ilustração: Mariana Mauro

sábado, 1 de setembro de 2007

'todos os caminhos me encaminham pra você'


Eu sei que você sabe, não adianta tentar esconder, pois quanto mais eu fujo mais você me tem por perto. Eu tenho estampado na cara e na minha alma o que sinto. Não, não, não! Não quero admitir que você me conheça tão bem, eu devia ser um mistério, uma charada, pronta para ser desvendada pedaço à pedaço por você, minha vida. E o que me corrói por inteira, que me toma de assalto várias vezes ao dia- seja quando me sento na hora do almoço ou quando me deito a noite pra sonhar com você- é o que me mantém acesa. Arde quando você se afasta, queima quando se aproxima. Sou extrema sim, assumo, amo muito e com uma força suficiente para falar aos berros que te quero, agora! Então esqueça todas as minhas manias, chatices, birras e tudo o que lhe desagrada e venha correndo agarrar todo o amor que houver nessa vida e que eu lhe ofereço, assim, de graça.

sábado, 18 de agosto de 2007




para celebrar as coisas boas da vida, as pequenas e singelas. Dando graça a incessante rotina de sermos nós.

sábado, 28 de julho de 2007

faço minha as palavras do poetinha

Para uma menina com uma flor

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara– na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.
Vinicius de Moraes







as palavras não ditas, os gestos que displicentemente são jogados no ar, os silêncios e as frases inacabadas com uma gargalhada ou um choro, tudo isso se resume a nós.

sábado, 14 de julho de 2007

dois pra lá, dois pra cá


ela era aquela que sentava distante, quase não falava e observava tudo escondida atrás de um caderno enorme e cheio de desenhos de um lugarzinho chamado nowhere. Era o mistério encarnado, quase uma Monalisa. O seu olhar de musa de Caetano e o seu gingado de Garota de Ipanema quase não era reparado por ninguém, quase. Havia naquele mesmo mundo de estranheza, um menino que era o oposto. Ele fazia o tipo James Dean e sua juventude transviada, admirado por todos e idolatrado pelas garotas. Mas era aquela menina distante que prendia os cabelos em um coque no alto e que se deliciava tomando sorvete de cajá como se fosse a última coisa que ela faria em vida, que mexeu com ele. A única entre tantas em que seu coração bateu em um ritmo diferente, não era mais uma festa, era um tango de Gardel e os dois dançavam lentamente 'El día que me quieras la rosa que engalana, se vestirá de fiesta con su mejor color...' e no final do entrelaçar de pernas, acontecia então, o beijo.

domingo, 8 de julho de 2007

é tempo de renovação.


Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo de travessia e se não ousarmos fazê-la teremos ficados para sempre à margem de nós mesmos.



Fernando Teixeira de Andrade
[move on with my life]